Entrevista com Sidónio Bettencourt na RDP Açores

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26.5.10

Perfume




Eu queria ter de novo apenas um perfume.
Aquele que é a tua pele, o teu bafo, o teu suor, o teu prazer.
Eu não ambiciono altares nem palácios,
nunca escrevi direitos nem anseios,
nunca lutei nem venci nada...
Mas tive tudo o que esperei da vida.
Tive umas águas furtadas em teu coração,
tive o encontro dos olhares repletos de um mundo por declamar,
tive a boca saciada dos teus manjares,
e permanece virginal.
Intocada desde então.
Inviolável por nenhum outro odor ou toque,
nem cada poro permitiu um outro poisar...
porque tu és o esvoaçar que eu olho de longe,
és a pluma que encanta o meu céu azul,
basta que respires,
basta que existas,
basta eu saber...
E vencerei os dias
e ganharei forças
e plantarei flores
e erguerei um palácio dentro de mim...
Esperarei, sem medos nem expectativas,
apenas esperarei na longanimidade do amor
um momento que desconheço
mas que lhe sinto o sabor
porque eu sei os teus aromas,
decorei a tua cor,
inspirei o teu fôlego,
acompanhei o compasso do teu pulsar,
e, mesmo calada,
te gritei, sem voz
tanto que te amo
que não caberia nas palavras...
E hoje apenas choro,
não de tristeza,
não de mágoa ou rancor,
não sei odiar, nunca aprendi,...
mas choro por saber que, afinal,
eu conheci o amor em toda a sua abrangência...
e essa infinitude é a tua eternidade em mim...

16.4.10

Hoje e todos os dias...




São Invernos que se sucedem.
Talhadas esperanças como estilhaços de um ontem.
Lábios gretados por silêncios que fedem.
Cortinados de um palco abandonado...
Lágrimas empurradas sem trilho por onde correr.
Um chão de terra seca ladrilhado.
Uma eternidade preenchida que se finge de nada...
Um sol distante que tarda romper.
Um amanhecer triste sem Primavera anunciada...