Entrevista com Sidónio Bettencourt na RDP Açores

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3.9.10

Poeta sem Piano




Ele devolvia-se à profundeza de seus silêncios.
Olhou-a no primeiro poiso de brisa quente soletrando-lhe os passos.
E ela deslizava na timidez expectante de um perfume desconhecido.
Como plumas rodopiantes num universo de ternura,
Seus mundos condensaram-se numa gota de felicidade eterna.
Foi ali,
Perante tudo o que era inválido, vencidos pelo fogo,
Que seus corpos se fundiram sem toque nem medo.
Então os lábios puros pecaram, rompendo o segredo,
E o mundo inteiro sorriu no contágio daquele instante…
E nem Romeu ousou reivindicar um trono
Que já não era mais seu.
Agora todos os poemas perfeitos,
destilados de versos pálidos e desajeitados,
erguiam-se nas teclas delicadas de pele suada
e rasgavam gemidos inconstantes…
De pianíssimo a forte, nas madeixas do desejo,
Os acordes eram um orvalho ascendente,
Condensados num luar estrelado e quente,
Que coroava o mistério oculto a todas as divindades.
Apenas o poeta sabia tocar sem piano,
E soltar daquela mulher de fogo, um som perfeito,
Como o crepitar de uma chama
Que teima em eternizar-se
Numa canção doce e divina
Composta pelo amor.

Silenciosdeouro
2010-09-03-01h10

26.5.10

Perfume




Eu queria ter de novo apenas um perfume.
Aquele que é a tua pele, o teu bafo, o teu suor, o teu prazer.
Eu não ambiciono altares nem palácios,
nunca escrevi direitos nem anseios,
nunca lutei nem venci nada...
Mas tive tudo o que esperei da vida.
Tive umas águas furtadas em teu coração,
tive o encontro dos olhares repletos de um mundo por declamar,
tive a boca saciada dos teus manjares,
e permanece virginal.
Intocada desde então.
Inviolável por nenhum outro odor ou toque,
nem cada poro permitiu um outro poisar...
porque tu és o esvoaçar que eu olho de longe,
és a pluma que encanta o meu céu azul,
basta que respires,
basta que existas,
basta eu saber...
E vencerei os dias
e ganharei forças
e plantarei flores
e erguerei um palácio dentro de mim...
Esperarei, sem medos nem expectativas,
apenas esperarei na longanimidade do amor
um momento que desconheço
mas que lhe sinto o sabor
porque eu sei os teus aromas,
decorei a tua cor,
inspirei o teu fôlego,
acompanhei o compasso do teu pulsar,
e, mesmo calada,
te gritei, sem voz
tanto que te amo
que não caberia nas palavras...
E hoje apenas choro,
não de tristeza,
não de mágoa ou rancor,
não sei odiar, nunca aprendi,...
mas choro por saber que, afinal,
eu conheci o amor em toda a sua abrangência...
e essa infinitude é a tua eternidade em mim...