Entrevista com Sidónio Bettencourt na RDP Açores

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7.11.11

Outono Eterno





Enquanto cerra a neblina

e um palco de sombras se acende ao vento,

o mar olha travesso em fúria felina

como quem esgrima a fuga do tempo...

Mas ele passa traiçoeiro,

matreiro e mentiroso.

Finge deslizar sem pegadas, disfarçado,

perante meus temores de olhos vendados,

e leva-me o ontem e o amanhã sem que eu conheça o hoje.

Talvez eu queira não ser presente.

Explico-me no enredo dos nadas disnexos,

nas palavras invertidas e pausas sonantes,

no não estar onde não pertenço,

mesmo que anseie ser eu, ali, ontem e amanhã.

Porque açoito o oceano quando ele me acalma,

beijo-o enquanto, rebelde, me rouba o ar...

Só porque sei que, num breve e puro olhar,

roubo-lhe os tempos, as certezas,

tiro-lhe a pax de saber quem é,

enquanto se acha lentamente em mim...

Encontra-me.

Sobe-me a planta dos pés,

humedece-me.

E quando me arrebata eu volto ao chão

atrás ... um passo de não.

Sei que já despedi a Primavera

e que não chegará o Verão...

Não trepei a hera do tempo,

rastejei em vénias nas poças da chuva

para nao perder o rasto de um choro triste e feliz,

porque sei quem sou, sem ti,

um outono eterno.

22.10.11

Conta-me do teu Azul







És um ponto, ao longe, que se dilata no meu olhar.

Abraças, por instantes, o infinito que te absorve para sempre

E desenhas, no invisível,



a paz e o silêncio de todos os momentos.

Ai! Quantos suspiros contidos em tua alma!

Tantas cores que se resumem num único novelo azul!

E tens o sabor de todos os orvalhos que o sol beijou,

Tens todos os segredos dos pássaros

E, no horizonte, um anel de chamas que te coroa.

Mas, nessa tal liberdade, és cativo de todas as chegadas,

Corres para um chão que te permitiu ascender ao sonho

Do qual tens a magia de nunca acordar…

Eu também estou aí

Nessa janela invisível, de um conto de fadas,

Nesse jardim de plumas brancas onde as nuvens têm pétalas

E os perfumes são todos quantos a imaginação permitir.

Conta-me do teu azul.

Dá-me as asas do vento e o seu sabor.

Decora a amplitude dos lençóis que te fazem levitar

E traz pedaços de céu e de mar…

Vem descendo sem pressa.

E traz um punhado de estrelas na mão.

E conta-nos...

Quantas delas têm os nomes de quem amas?

Quantas vezes espreitaste o sol que se esconde de nós…?

Quantos sonhos pensaste nesses breves instantes

Que se alongaram para a vida…?

Talvez não tenhas tido tempo de pensar,

Talvez tenhas aproveitado para seres tu mesmo e voar…

Talvez não sejas um anjo como tantos te desenham

Porque és um pouco mais…

Quando declamaste gestos de ternura num olhar sereno,

Quando encostaste o rosto suavemente

Deixando fluir a tua autenticidade,

E quando não esvoaçaste, porque estavas sempre aqui,

Onde a realidade existe.

És homem com asas no peito

De onde brotaram sonhos e medos,

Onde cada carícia tomava as proporções de um voo,

Onde houveram poemas que nunca escreveste

Mas que expressaste

no brilho intenso de embaixador dos céus!



A tua partida é o toque final de uma obra de arte.

Porque levas pedaços de todos nós

E os devolves nas memórias cheias de paraíso

do paraíso que ganhou o tom do teu azul,

Do azul que me contaste tantas vezes!

Nosso Herói!



Crystal

2011-10-22



Eterna Saudade



Tomás Ribeiro